Rodolphe Töpffer
Publicado por bruunnaa em Março 25, 2008
Rodolphe Töpffer foi um artista, escritor (francófono), crítico de arte e pedagogo suíço, que viveu no século XIX. Conhecido no seu país como escritor e pintor, sem descurar os seus livros de “literatura de estampas”, dando nomes mesmo a ESCOLAS, ele é conhecido em todo o mundo por ser o “inventor da banda desenhada”. Filho de um pintor alemão de algum sucesso, e no seio de uma família pequeno-burguesa dedicada às várias sensibilidades das artes, o seu destino estava talhado para seguir as passadas do pai no mundo das artes visuais. Sobretudo a pintura, apesar de Wolfgand Adam Töpffer, o pai, também se ter dedicado à caricatura, especialmente alegorias políticas. No entanto, quase como se num conto de contornos bíblicos, uma doença do foro visual impedi-lo-ia de prosseguir essa carreira, e desviou-se para as letras… escreveu contos, um romance, e vários relatos de viagens (muito em voga, então) ilustrados pelo seu próprio punho. Tornando-se professor, chegou mesmo a ocupar uma cadeira de Retórica. E foi enquanto perceptor que deu vida a uma série de aventuras de personagens muito particulares, em pequenos livrinhos feitos à mão com croquis e pequeníssimos textos, naquilo que ele próprio chamaria de “literatura em estampas”, e nós “banda desenhada”.
É óbvio que estou a reduzir uma complexa teia de acontecimentos e circunstâncias da sua vida, aprendizagem e das convergências culturais que se consolidariam na sua obra, mas estas são as linhas gerais que nos importarão seguir. O facto de Töpffer ter construído os livros em exemplares únicos para serem fruidos apenas pelos seus alunos ou um círculo reduzido de amigos poderá recordar-nos a nossa actual ideia de fanzine; a publicação posterior em volumes (álbuns) singulares (aqui vemos as capas de Mr. Pencil, de 1840, e Mr. Cryptogame, de 1845, redesenhado por Cham), depois em compilações, as imitações, etc., fazem em si mesmo uma história conturbada e complexa. O investigador português Leonardo de Sá tem uma excelente sinopse ,em que essa linha torta se endireita um pouco, para podermos seguir estas obras de Töpffer. Mas é a vida “transportável” dos livros que alteraria o papel social de todos os objectos anteriores e que se costumam agregar na História, da banda desenhada, e que lhes garantiriam uma determinada repercussão enquanto construção cultural que transformaria possível falar de uma nova arte (explicaremos como).
Apesar da ideia de ver em Töpffer o fundador da arte conhecida como banda desenhada ser ter já alguns anos, e muitos defensores, a obra que apresentaria a perspectiva mais consolidada e estruturada dessa defesa é a dos investigadores Thierry Groensteen e Benoît Peeters – ambos autores absolutamente incontornáveis no estudo da banda desenhada – que se vê aqui ao lado, Töpffer. L’invention de la bande dessinée. Nessa obra, cada um dos autores apresenta um estudo: Peeters explana os aspectos mais pensados por Töpffer dentro da sua arte, a saber, o estudo da fisionomia e a ligação que esses traços tinham com a personalidade, e de que modo esse saber multímodo foi aplicado quer nas ciências (de Lavater a Bertillon) quer nas artes (de Grandville a Moebius, passando por Balzac); Groensteen prende-se sobretudo a uma certa evolução de uma arte, explorada desde a caricatura inglesa do século XVII e as suas relações com as imagens populares até aos muitos “herdeiros” de Töpffer, quer os directos (Cham, Christophe, Samivel) quer a outros menos imediatos. Depois, o livro apresenta organizados alguns dos escritos do artista suíço sobre a sua obra da “literatura de estampas”, desde cartas a artigos em revistas estéticas, até ao seu Ensaio sobre a Fisiognomonia.
O Ensaio foi em primeiro lugar publicado parcialmente, numa publicação periódica, em 1845, sendo em 1849 que saíria na íntegra, numa versão “autografada” (explicarei mais tarde), ilustrada. O objectivo destes textos é, claramente em primeiro lugar, o de explicar o quão superior o método da fisiognomonia era em relação a outros (como a frenologia) em dar a conhecer o carácter humano através dos traços físicos do indivíduo. Todavia, as considerações de Töpffer vão bem mais além disso, e acaba por se fazer uma defesa da irredutibilidade da alma humana, com repercussões morais e até mesmo religiosas, uma defesa da ideia romântica da superioridade da arte criada pelo bem da sua própria existência, pequenas notas sobre a corrupção moral a que determinados escritores votam os seus leitores e que tipo de soluções estéticas são possíveis para evitar esses males.
Mais ainda, o Ensaio, uma vez que procura explicar os traços dos rostos humanos na sua relação imediata com características morais ou intelectuais, acaba por ser uma espécie de semiótica facial, de exploração das “unidades mínimas de significado” possíveis, ainda que o autor acabe por confessar tal ser impossível. E, como quem não quer a coisa, quase como se fosse um produto derivado, mas que acaba por tornar este texto no primeiríssimo texto intelectual sobre a banda desenhada, Töpffer avança muitas noções e considerações gerais que acabam por ser definidoras, ou melhor, explicativas, do que ele entende ser a “literatura em estampas”, ou “banda desenhada”.
Para além das especificidades formais da obra de Töpffer, em que surgem muitas das técnicas hoje tidas como concernentes a esta arte, e que contribuem para o título (Arbritrário, pertinente) de “inventor da banda desenhada”, é o Ensaio o que torna Töpffer também o seu primeiro teórico, teorizador, intelectual, e muito forte acima de tudo.